Qual será o legado do RH para as empresas no mundo pós-pandemia? Entrevista com Camila Pires

Sabemos que nenhuma área de Recursos Humanos é igual à outra, cada empresa possui seu perfil e distintas formas de lidar com seus processos. Agora imagine isso no contexto atual que estamos vivendo, assim como estar inserido em um RH voltado para a área da saúde e educação. Pode ser um desafio e tanto, né? Pensando no RH pós-pandemia, conversamos com a Camila Pires, Analista de Desenvolvimento Organizacional da Fundação São Francisco Xavier (FSFX).

Camila é apaixonada em desenvolver ações e projetos que engajem as equipes às estratégias da organização. Por isso, contou na entrevista abaixo para a Factorial como a Fundação e o RH têm criado práticas para lidar com delicadeza e empatia na atual conjuntura do COVID-19. Afinal, não será isso que importa no fim do dia?

Além disso, a própria história de Camila se entrelaça com a da FSFX, e mesmo que o estejamos passando por um momento desafiador, é uma oportunidade única para crescer em uma empresa que possui tanto significado pessoal. Continue e saiba como o RH focado em saúde e educação, duas das áreas mais atingidas pela pandemia, estão atuando! Boa leitura.

Para quem não conhece a Fundação, você pode nos explicar o que ela faz? E como você analisa o momento atual da Fundação em relação à pandemia?

A Fundação é uma entidade filantrópica que tem sete unidades de negócio: Hospital Márcio Cunha (HMC), Hospital Municipal Carlos Chagas (HMCC), Hospital de Cubatão (HC), Colégio São Francisco Xavier (CSFX), Usisaúde – operadora de planos de saúde, Centro de Odontologia Integrada (COI) e a VITA – Soluções em Saúde Ocupacional.

Estamos lidando com pessoas de âmbitos totalmente distintos, saúde e educação. Temos que criar estratégias a todo momento, não só para a área de saúde, mas também quem está de home office e o colégio, por exemplo. 

Gostaria que você nos contasse sua história com a Fundação São Francisco Xavier. Pelo que entendi, o caminho de vocês já tinha se cruzado antes, é isso?

Eu falo isso porque eu nasci no Hospital Márcio Cunha, em Ipatinga, e estudei no Colégio São Francisco Xavier. Meu pai trabalhou e se aposentou na Usiminas. A Fundação tem como mantenedora a Usiminas e meu primeiro estágio foi lá, comecei na área de desenvolvimento, o que eu gosto e atuo até hoje. Em seguida, me formei e me mudei para Belo Horizonte.

Durante grande parte da minha vida eu fiz parte da Fundação São Francisco Xavier, e eles fizeram parte da minha. Ou seja, minha vida foi sempre voltada para a Fundação. Como algumas pessoas já me falaram: “A Fundação já estava no seu DNA”. É… Estava mesmo!

Além disso, para mim é muito importante ter a oportunidade de contribuir para que possamos crescer ainda mais! Vejo o trabalho na Fundação como um propósito porque foi ali que eu nasci e aprendi a ler escrever e me desenvolver, e agora é o momento de contribuir. Eu acredito que tudo na vida tem um motivo e realmente foi um momento que nossos caminhos se cruzaram.

Quais têm sido os desafios de atuar na área de RH de uma instituição de saúde neste momento de pandemia? Quais são os diferenciais de trabalhar com saúde e recursos humanos?

É claro que um dos grandes desafios têm sido contratar profissionais da saúde, o mesmo desafio que todas as unidades de saúde estão encontrando. Para o RH, é o momento de se tornar ainda mais humanizado, eu falo muito isso, o momento é incerto e o futuro não pode nos frear, no sentido de pensar em novas ações.

Por exemplo, há alguns dias mandamos cartas para a casa de todos que fazem parte da Fundação, cerca de 7000 colaboradores, com um agradecimento. São detalhes que reforçam nossos valores e cuidados com o próximo. Vejo neste momento que a liderança também se transforma, o comando e controle abrem espaço para uma liderança mais empática, humanizada, colaborativa e flexível.

Está sendo um mundo novo para todos, tivemos que nos adaptar em caráter emergencial. Devemos sempre ouvir o as pessoas e para isso fizemos uma pesquisa com intuito de entender a percepção dos colaboradores e gestores sobre o home office e este varia de acordo com a realidade. Então, é momento de pensar como será o home office, aprimoramos as práticas de gestão e nos preparamos para o momento pós-pandemia. Assim como, ouvir e compreender a realidade de cada um. 

Para os líderes e equipes, como eles podem se adaptar à esse novo momento e como o RH da Fundação têm atuado para tornar essa transição mais adequada?

Para os líderes também é algo novo. Você deve ter visto que cresceu muito as reuniões de Zoom, Google Meet, algo que nunca lidei tanto dessa maneira. Hoje, como faremos, por exemplo, o onboarding? Ele era presencial, agora temos que pensar no virtual e projetar algo atrativo, amigável e que proporciona ao colaborador uma experiência em que ele fique entusiasmado.

Dessa forma, estamos estruturando alguns projetos que abordarão as competências que estão sendo exigidas no novo cenário. Recentemente, em maio, começamos a fazer lives, com diversos assuntos voltados para as necessidades de líderes e equipes. Nós prezamos em ouvir os colaboradores, fazemos um questionário sobre o que eles querem saber. Por exemplo, na semana passada, foi sobre home office. As pessoas participam, perguntam e é um momento de interação, e sempre buscamos um profissional que tenha expertise no tema para falar.

Aliás, é um momento de cuidados. Porque estamos vivendo em um home office que não é tradicional, em que ninguém pode sair de casa. Estamos falando muito também sobre a digitalização do RH, mas reforço que transformação digital não é sobre tecnologias super avançadas, mas sim sobre a experiência que essas tecnologias podem proporcional ao ser humano.

Sobre a saúde mental dos colaboradores, quais têm sido as estratégias para manter o equilíbrio e engajar a todos em um momento difícil?

Oferecemos também psicólogos e médicos por meio da teleconsulta quando o colaborador sentir necessidade. Desde o início, para quem está em home office e quem está na linha de frente, há esse atendimento e não é necessário a identificação.

A ação da live também é focada em saúde mental. Por exemplo, o próximo é sobre convívio familiar em tempos de pandemia. As lives foram um auxílio para lidar com o momento, esse é um projeto que nasceu na pandemia e que veio para ficar.

A sua equipe de RH já pode mensurar resultados ou recebeu feedbacks desse tipo de ação?

Todo mundo agradece! Para você ter uma ideia, tivemos uma média alta de participação na nossa live de home office. Eu acredito que por ser um tema pertinente para o momento, tivemos várias questões interessantes. Afinal, não é só RH, todo nossa empresa está passando por uma adaptação para o home office e estivemos recebendo vários elogios e sugestões de melhorias.

O cuidado está vindo também da alta liderança, a prioridade é quem pode trabalhar de casa, que trabalhe de casa no momento. É uma reestruturação de toda a empresa e especialmente do RH, pois queremos tornar essa experiência inédita de forma positiva. 

Como transferir as estratégias de cultura organizacional para o modo home office? De que forma as equipes da Fundação e RH estão se coordenando para reforçar alinhamentos?

Temos reuniões regularmente. Com a nossa Head de RH é a cada 15 dias, alinhamos processos, o que estamos fazendo, e nossa Head comunica tudo isso para a diretoria. Há sempre essa comunicação também com o nosso time de desenvolvimento, semanal, um alinhamento frequente e necessário, mas sem excessos.

Estamos sempre ouvindo da diretoria e do nosso presidente: simplicidade, agilidade e humildade. É para sabemos não perder tempo, realizar entregas assertivos e com olhar crítico, assim como humildade para lidar com nossas rotinas, processos e pessoas.

Dessa transformações e novos processos, quais você acredita que irão se manter no RH pós-pandemia?

Eu acho que muitos processos serão implementados! Já vivemos em um mundo desafiante e complexo, e com certeza não vamos voltar a ser como antes. É virada de chave.

Antes, algumas pessoas diziam que não conseguiriam fazer home office, mas hoje, me relatam que foi possível. Assim como, há pessoas que não se adaptam. No entanto, vejo que na maioria das pessoas há essa mudança de chave. Do meu lado, cresci muito e gosto de falar que o desenvolvimento humano foi um aprendizado que vou levar para toda vida.

Para você que viveu em dois lados, o que você tirou dessa experiência na área?

Independente do cenário, é um momento de sermos ainda mais humanos e protagonistas de ações. É agora!

O futuro incerto não pode nos frear na hora de promover práticas e estratégias para as pessoas, elas são o centro de tudo. Muitos processos foram transformados pela tecnologia, mas não podemos deixar de pensar e colocar as pessoas no centro.

Percebo que você fala que este momento se tornou ainda mais sobre as pessoas. Qual será o efeito dessa mudança de reforço do olhar para os colaboradores? 

O maior benefício será o crescimento da empresa. É o momento de entender o que está acontecendo e criar políticas com aquilo que elas estão pensando. Além disso, um olhar voltado para as pessoas faz a diferença, temos colaboradores mais engajados. O tempo todo prezamos por isso. Assim como voltado para as softs skills que só vêm da essência da pessoa. Volto sempre à isso, valorização à diversidade, inclusão, empatia, inovação. Tudo está sendo um aprendizado para a vida.

Além disso, as empresas que serão lembradas no futuro e que serão destacadas são aquelas que tiveram maior cuidado com os colaboradores. Isso ficará marcado nas pessoas e é a marca e legado que queremos deixar na vida delas. Este é o momento mais desafiador da minha carreira.

Nunca entrei em uma empresa em que comecei 3 dias presenciais e depois fui para o home office. É um momento também que estou tendo desafios e no qual estou tendo mais aprendizados.




A Factorial agradece muito a colaboração da Camila Pires e da Fundação São Francisco Xavier, desejamos muito sucesso!

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